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Liderança Servidora – Parte 2

Do Livro de Robert Greenleaf

Prefácio escrito por Stephey Covey – Continuacão

Autoridade Natural e Autoridade Moral

Por serem os únicos dotados com o poder e liberdade de escolha, os seres humanos tem uma autoridade natural sobre todo o restante da criação. O resto da criação não tem esse poder e liberdade de escolha. Não é uma questão de grau ; é uma questão de gênero. Isto é porque gente tem uma autoridade natural sobre os animais e meio-ambiente.

Porque temos essa autoridade natural resultante de nosso poder e liberdade de escolha, precisamos usá-la de modo criterioso, agindo com princípios. Alguns de nós não o temos feito.

Nós temos violentado nossa incumbência de gerenciar a terra e as outras criaturas com as quais nós vivemos, então precisamos de leis que protejam o meio-ambiente e as espécies em risco.

Autoridade moral é diferente de autoridade natural. Autoridade moral vem do uso do poder natural e da liberdade de escolha baseado em princípios. Quando as pessoas vivem de acordo com sua consciência, respondendo aos princípios universais que comentamos antes, seu comportamento ecoa nas almas de todos. As pessoas instintivamente sentem confiança nelas. Este é o princípio daautoridade moral.

Se uma cultura inteira estivesse imbuída deste tipo de autoridade moral, esta não precisaria de leis externas. As pessoas viveriam e seriam governadas pelas morais internas. Elas todas seguiriam um sistema comum de valores. Ao exercitar sua liberdade com responsabilidade, elas viveriam naquilo que, na virada do século Lord Moulton, membro do parlamento britânico, chamou de “o terceiro domínio,” a lei não enforçada. Não o primeiro domínio, liberdade, nem o segundo, a lei, mas o terceiro domínio, um sistema de valores governados por uma consciência universal.

Autoridade moral é uma outra maneira de definir liderança servidora porque representa uma escolha recíproca entre líder e seguidor. Se o líder está centrado em princípios, ele desenvolverá autoridade moral. Se o seguidor está centrado em princípios, ele seguirá o líder. Nesse sentido, tanto líderes como seguidores, são seguidores. Porque? Eles seguem a verdade. Eles seguem a lei natural. Eles seguem princípios. Seguem uma visão comum, consensual. Eles compartilham valores. Eles constroem confiança um no outro. A autoridade moral é mutuamente desenvolvida e compartilhada.

Quatro Dimensões da Autoridade Moral (Consciência)

Vamos aqui brevemente considerar as quatro dimensões da autoridade moral, o núcleo da liderança servidora.

1. A essência de autoridade moral ou consciência é sacrifício — a subordinação de si mesmo

ou seja seu próprio ego, a uma causa, princípio ou propósito mais elevado. Este sacrifício pode tomar formas diversas, pois se manifesta nas quatro dimensões de nossas vidas: fazer sacrifícios físicos e econômicos (corpo); cultivar uma mente aberta e inquisitiva e purgar-nos de preconceitos (mente); mostrar profundo respeito e amor a outros (coração); e subordinar nossa vontade a uma vontade mais elevada buscando o bem maior (espírito).

Consciência é uma voz interior baixa e serena. É quieta. É pacífica. O ego é tirânico, despótico, e ditatorial.

O ego foca na própria sobrevivência e prazer, realçando-se mediante a exclusão de outros; o ego é egoisticamente ambicioso. Ele vê relacionamentos em termos de ameaça ou não ameaça, como criancinhas que classificam as pessoas em termos de “boazinhas” ou “malvadas”. A consciência por outro lado, ambos democratiza e eleva o ego a uma noção maior do grupo, do todo, a comunidade, o bem maior. Ela vê a vida em termos de contribuição e serviço, em termos da segurança e realização dos outros.

O ego funciona diante da crise genuína mas não tem discernimento para decidir quão severa uma crise ou ameaça é. Ele não pode discernir então de agora e quando. A consciência é cheia de discernimento e sente o grau da ameaça. Ela tem um vasto repertório de respostas. Tem paciência e sabedoria para decidir o que fazer e quando. A consciência vê a vida numa seqüência contínua. É capaz de uma complexa adaptação.

O ego não consegue dormir. Ele micro-gerencia. Ele despotencializa. Ele reduz nossa capacidade. Ele se excede em controlar. A consciência honra profundamente as pessoas e vê seu potencial de auto-controle. A consciência gera poder. Ela reflete o valor e mérito de todas as pessoas e afirma seu poder e liberdade de escolher. Então o autocontrole natural emerge, não imposto nem de cima, nem de fora.

O ego se vê ameaçado por feedback negativo e pune o mensageiro. Ele interpreta todos os dados em termos de autopreservação. Ele constantemente censura informação. Ele nega muito da realidade. A consciência valoriza feedback e tenta discernir qualquer verdade que ele contenha. Não tem medo de informação e pode acuradamente interpretar o que está acontecendo. Não tem necessidade de censurar informação e está aberta a um conhecimento de todos os ângulos da realidade.

O ego é míope e interpreta toda a vida através de sua própria agenda. A consciência é um ecologista social ouvindo e sentindo todo o sistema e ambiente. Ele preenche o corpo com luz, é capaz de democratizar o ego para que reflita mais acuradamente o mundo inteiro.

2. A consciência nos inspira a nos tornarmos parte de uma causa digna do nosso compromisso.Enquanto prisioneiro num campo de concentração da Alemanha Nazista, Doutor Viktor Frankl primeiro fez a si mesmo uma questão, “O que eu quero ?” Mas gradualmente submeteu-se a sua natureza mais elevada, sua consciência, e mudou a questão para “O que se requer de mim ?” Isto mudou totalmente seu mundo. Ao invés de tentar inventar respostas para suas perguntas, ele escutou a sua consciência, a voz moral interior, e detectou as respostas. Ele em seguida fez o mesmo com os outros prisioneiros. E os confrontou diretamente. Ele por exemplo perguntaria a um homem que estava em desespero “Então porque você não tira sua própria vida?” A resposta poderia ser “Pelo sofrimento que isto causaria a minha esposa.” E nesta resposta a pessoa descobria um sentido por trás de seu próprio sofrimento.

Quando nós transformamos nossa questão de o que nós queremos para o que está sendo pedido de nós , nossa consciência se abre e nos permitimos ser influenciados por ela. Que tamanha mudança de mente e coração! Sinta a paixão na convicção de George Bernard Shaw:

Esta é a verdadeira alegria, ser usado para um propósito que se reconhece como grandioso. Ser uma força da natureza ao invés de um egoísta febril, pequena massa de doenças e injúrias, queixando-se porque o mundo não vai se devotar a fazê-lo feliz. Eu sou da opinião que minha vida pertence a toda comunidade, e enquanto eu viver, é meu privilégio fazer por ela o que eu puder. Eu quero ter sido completamente usado quando eu morrer, pois quanto mais duro eu trabalho, mais vivo. Eu me regozijo na vida por ela mesma. A vida não é uma “pequena vela” para mim; é como uma esplêndida tocha a qual eu tenho que levantar neste momento, e eu quero fazê-la arder tão brilhante quanto possível antes de passá-la a futuras gerações.

3. A consciência nos ensina que fins e meios são inseparáveis, que os fins na realidade pré-existem nos meios. Imanuel Kant ensinava que os meios usados para realizar os fins são tão importantes quanto esses mesmos fins. Maquiavel ensinava o oposto, que os fins justificam os meios.

Gandhi ensinou que há sete coisas que vão nos destruir. Ao estudá-las lenta e cuidadosamente, nós vemos de maneira poderosa como cada uma delas representa um fim sendo realizado por meios indignos ou sem princípios:

  • Riqueza sem trabalho.
  • Prazer sem consciência.
  • Conhecimento sem caráter.
  • Comércio sem ética.
  • Ciência sem humanidade.
  • Adoração sem sacrifício.
  • Política sem princípios.

Não é interessante como cada um desses fins admiráveis pode ser alcançado falsamente? Mas se nós atingirmos um fim admirável através de meios errados, os fins por último tornam-se pó em nossas mãos.

Ao lidar com nossos negócios nós sabemos quem é honesto conosco, quem guarda seus compromissos e promessas. Nós também sabemos exatamente quem é dúbio, enganoso e desonesto. Ainda quando formalizamos um contrato acertado com eles, realmente confiamos que eles irão cumprí-lo e manter sua palavra?

É a consciência que constantemente nos diz o valor de ambos, dos fins e dos meios e como eles são inseparáveis. Mas é o ego que nos diz que os fins justificam os meios, desconhecendo que um fim digno não pode nunca ser realizado por meios indignos. Isto pode até aparentar ser possível, mas há conseqüências não intencionais que não são evidentes no começo, e que vão terminar por eventualmente destruir o fim. Por exemplo, nós podemos gritar com nossos filhos para que limpem seus quartos, e se nossa finalidade é apenas ter um quarto limpo, nós podemos conseguir só isto exatamente. Mas eu garanto que não apenas o meio irá afetar negativamente aos relacionamentos, mas o quarto não permanecerá limpo se estivermos longe por uns poucos dias.

. A consciência nos introduz no mundo dos relacionamentos. Ela nos move de um estado de independência para um estado de interdependência. Quando isso acontece, tudo é alterado. Nós entendemos que valores e visão devem ser compartilhados antes que as pessoas se disponibilizem a aceitar a disciplina institucionalizada de estruturas e sistemas que incorporam esses valores compartilhados. Esta visão compartilhada cria disciplina e ordem sem demandá-la. A consciência freqüentemente provê o porquê , a visão identifica o quê estamos tentando realizar, a disciplinacomo realizá-lo, e a paixão representa a força dos sentimentos atrás do porquê, do quê e do como.

A consciência também transforma paixão em compaixão. Ela engendra sincero cuidar de outros, uma combinação de ambos simpatia e empatia, aonde é partilhada e recebida. Compaixão é a expressão interdependente da paixão. Jo Ann C. Jones relata uma experiência em que seu profesor universitário a ensina a aprender e viver guiada por sua consciência:

Durante meu segundo ano da escola de enfermagem, nosso professor nos deu um teste. Eu passei direto através das questões até ler a última: “Qual o primeiro nome da faxineira que limpa a escola?” Isto era certamente uma piada. Eu tinha visto a faxineira várias vezes, mas como iria saber o nome dela? Eu entreguei minha folha deixando a última questão em branco. Antes da aula terminar, um aluno perguntou se a última questão valeria para a nota. “Com certeza,” o professor disse. “Nas suas carreiras, vocês vão encontrar muitas pessoas—todas elas são significativas. Elas merecem sua atenção e cuidado. Ainda se tudo o que você faz é sorrir e dizer olá”. Eu nunca esqueci essa lição. Eu também aprendi que o nome dela era Dorothy.

Quando as pessoas se esforçam para viver segundo suas consciências, isto produz integridade e paz mental. Willian J. H. Boetcker diz, “Para que você possa manter respeito próprio, é melhor desagradar às pessoas por fazer o que você sabe ser certo, do que temporariamente agradá-las por fazer o que você sabe ser errado”. Esse respeito próprio e integridade em retorno, produzem a habilidade de ser ambos, amáveis e corajosos com as outras pessoas—amáveis ao mostrar um grande respeito e reverência por outros, seus pontos de vista, sentimentos, experiências e convicções, mas corajosos também ao expressar suas próprias convicções sem ameaça pessoal. O interagir entre diferentes opiniões pode produzir aquelas terceiras alternativas que são melhores que quaisquer das anteriormente apresentadas. Isto é verdadeira sinergia na qual o todo é maior que a soma das partes.

As pessoas que não vivem de acordo com suas consciências não vão experimentar essa integridade interior e paz mental. Elas vão descobrir seu ego tentando controlar os relacionamentos.

Ainda que possam pretender e forjar amabilidade e empatia ocasionalmente, elas usarão formas sutis de manipulação e irão tão longe como chegar a engajar-se num comportamento amável, mas ditatorial.

A vitória em particular da integridade é o fundamento para as vitórias públicas de estabelecer uma visão, disciplina e paixão comum. Assim a liderança se torna um trabalho interdependente ao invés uma interação imatura entre governantes fortes e independentes guiados pelo ego e seguidores dependentes e dóceis.

Autoridade Moral e Liderança Servidora

Minha definição de autoridade moral: Nossa Natureza Moral + Princípios + Sacrifício. Muitos de nós sabemos que devemos nos comportar de uma certa maneira, mas o sacrifício nos incapacita de realmente nos comportarmos destas formas que estão alinhadas com princípios universais. Portanto, sacrifício é a essência de autoridade moral, e humildade é o atributo fundamental do sacrifício.

Autoridade moral vem através de sacrifício nos quatro elementos básicos de nossa natureza: sacrifício físico e econômico é ter temperança e dar de volta, devolver; sacrifício emocional/social é rendição do ego à diferença e valor do outro, é pedir perdão e perdoar; sacrifício mental é colocar o aprender acima do prazer e compreender que a verdadeira liberdade vem da disciplina; e sacrifício espiritual é viver a vida humilde e corajosamente, vivendo e servindo sábiamente.

O interessante acerca de autoridade moral é o paradoxo em que consiste. O dicionário defineautoridade em termos de comando, controle, poder, manobrar, supremacia, dominação, domínio, força, poder.

Mas alguns de seus antônimos são funcionário servidor, fraqueza, seguidor. Autoridade moral, porém, é conquistar influência através de seguir princípios. Domínio moral é alcançado através do serviço, do atender, da contribuição. Poder e supremacia moral emergem da humildade, aonde o maior torna-se o servo de todos. A autoridade moral é conquistada através do sacrifício. Robert Greenleaf o coloca desta forma:

Um novo princípio moral está emergindo, o qual defende que a única autoridade merecedora de fidelidade, é aquela ciente e livremente concedida pelo liderado ao líder, em resposta e na proporção, da estatura clara e evidentemente servidora do líder. Aqueles que escolhem seguir este princípio não irão casualmente aceitar a autoridade de instituições existentes. Preferirão livremente responder apenas a indivíduos escolhidos como líderes porque foram provados e confiados como servos. À medida que este princípio prevaleça no futuro, as únicas instituições verdadeiramente viáveis serão aquelas predominantemente guiadas por líderes servidores.

Geralmente a minha experiência mostra que as pessoas de excelência no topo das organizações são líderes-servidores. Eles são os mais humildes, mais respeitosos, mais abertos, ensináveis, reverentes, os mais atenciosos e mais determinados. Quando pessoas com autoridade formal ou posição de poder, recusam-se a usar essa autoridade e poder, a não ser como um último recurso, sua autoridade moral aumenta, porque se torna óbvio que eles subordinaram seu ego e o poder de uma posição, e usam o raciocínio, persuasão, amabilidade, empatia e, em poucas palavrasconfiabilidade ao invés disso.

Por outro lado, quando as pessoas usam cedo demais sua autoridade formal, sua autoridade moral é diminuída. Quando pegamos força emprestada, nós aumentamos a fraqueza em três áreas: em nós mesmos, porque não estamos desenvolvendo autoridade moral; nos outros, porque eles se tornam co-dependentes do nosso uso de autoridade formal; e na qualidade do relacionamento, porque autêntica abertura e confiança nunca se desenvolvem assim.

Ilhas de Excelência em um Mar de Mediocridade

Já pensou, se nós conseguíssemos comunidades modelo nesse país, e instituições modelo, escolas, empresas e unidades governamentais que se tornassem ilhas de excelência em mares de mediocridade? E se elas pudessem se tornar modelos que transportando o que aprenderam, transformariam-se em mentores de outros, assim todo esse espírito de liderança servidora, de stewardship, de trabalhar no processo para alavancar poder através de sistemas e estruturas, se enraizaria e floresceria, não é mesmo? Eu honestamente creio que nós poderíamos curar nosso país. Eu creio que a grande maioria das pessoas nesse país, com o tipo certo de liderança servidora em todos os níveis — principalmente no nível familiar — poderiam curar nosso país. De outra forma, os problemas sociais presentes, irão piorar e se aprofundar até que eventualmente, eles vão sobrecarregar a engrenagem econômica — e isso irá detonar tudo.

Eu tenho a esperança e confiança de que podemos reescrever a história. Eu tenho a mesma esperança pelos povos de todas as nações, pois os princípios de liderança servidora são universais. Eu creio que a esperança é um imperativo moral, que enquanto mantivermos a chama da nossa esperança acesa, por nossos próprios esforços nos tornaremos uma grande parte da solução.

Eu parabenizo o Centro Greenleaf de Liderança Servidora por seu inestimável serviço à sociedade, por carregar a tocha da liderança servidora através dos anos, e pela iniciativa desta nova edição (da obra clássica sobre o tema “Liderança Servidora”). Ao leitor, eu humilde e sinceramente recomendo este livro, um maravilhoso tesouro de insights para você.

Dr. Stephen Covey foi vice-presidente da Franklin Covey Company, a maior organização de desenvolvimento de liderança e gerenciamento do mundo. 
Ele é talvez mais conhecido como o autor de 
Os Sete Hábitos de Pessoas Altamente Eficazes , um livro cuja mensagem motivadora tem mantido em numerosas listas de best-sellers por mais de dez anos corridos. Aqueles familiarizados com seu trabalho não se surpreenderão ao saber que o Dr. Covey 
foi reconhecido pela revista Time, como um dos vinte e cinco norte americanos mais influentes.

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